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No último dia 7 de janeiro, a startup Nubank anunciou o seu quarto aporte de 50 milhões de dólares (o equivalente a 208 milhões de reais, na cotação do fim de dezembro, quando o acordo foi fechado).

Para quem não conhece, o Nubank, segundo a própria empresa, representa a nova geração de serviços financeiros do Brasil

A grosso modo, a empresa é um banco moderno que busca criar novas formas de relacionamento com os seus clientes, oferecendo taxas mais atrativas que os bancos tradicionais.

Com essa nova rodada de investimentos, a startup passa a valer US$ 500 milhões, é atualmente a maior Startup brasileira e muitos dizem que será o nosso primeiro unicórnio.

Para quem não conhece, esse é o termo para as Startups que conseguem chegar a valer mais de 1 bilhão de dólares.

É algo que só se acredita vendo.

O crescimento do Nubank é o símbolo de uma revolução que está acontecendo no Brasil e que pode levar ao desaparecimento de várias instituições.

Contudo, para entender o que está rolando, é importante primeiro compreender o sistema bancário brasileiro.

Concentração bancária brasileira

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Hoje em dia, os 5 maiores bancos do Brasil dominam praticamente 80% do mercado.

A tendência do processo é clara: um pequeno número de bancos passou a concentrar um valor crescente de ativos e depósitos durante os últimos 17 anos.

A fusão do Itaú com o Unibanco em 2008 — à época, o segundo e o sexto maiores bancos, respectivamente — provocou um salto significativo na concentração, elevando o percentual de ativos dos cinco maiores bancos para mais de 80%.

Muitos dizem que essa fusão deveria ter sido barrada, mas agora Inês é morta.

O processo de concentração é nítido, mas cabe a pergunta: porque isso acontece?

A resposta não é tão simples.

As reservas bancárias

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As reservas bancárias

Para entender sobre a concentração bancária, é importante entender como funciona um banco.

Há milhões de indivíduos depositando o dinheiro em suas contas bancárias . Dado essa situação, é notável que a maior parte desse dinheiro continua no banco, dia após dia.

Após anos e anos de experiência, notou-se que existia uma probabilidade pra uma pessoa retirar o dinheiro da sua conta. Assim, o banco só precisaria ter uma certa quantidade de dinheiro em sua reserva para bancar essas retiradas e o resto ele poderia simplesmente emprestar.

Dessa forma, todo banco precisa manter uma reserva bancária para garantir que uma vez que alguém saque dinheiro, ele possa efetivamente devolver o dinheiro. O restante é utilizado para criar múltiplos empréstimos.

Note que a rentabilidade dos bancos é diretamente afetado pela porcentagem de dinheiro que eles precisam manter em suas reservas. Pense na seguinte situação:

Imagine que 100 pessoas depositam R$1.000,00 todo mês no banco “Amigo do Bairro”.

A probabilidade de que as pessoas retirem o seu dinheiro é de 5%. Assim, se o banco quiser ser bem conservador, ele pode manter uma reserva de 10% de todo o seu dinheiro. Logo:

Reserva bancária = R$10.000,00

Assim, o dinheiro disponível para empréstimo será de :

Total disponível = R$90.000,00

Para esse exercício, vamos considerar que os custos do banco são zero. O dinheiro que está guardado na reserva bancária rende 10% ao ano, enquanto o dinheiro que está emprestado rende 100% ao ano. Logo, o lucro do banco será de:

Lucro = R$1.000,00 (Lucro da reserva) + R$90.000,00 (Lucro dos empréstimos)

Caso a reserva bancária fosse de 20%, o lucro seria:

Lucro = R$2.000,00 (Lucro da reserva) + R$80.000,00 (Lucro dos empréstimos)

Percebeu? Quanto mais o banco precisar guardar dinheiro em sua reserva, menor será o seu lucro, pois menos ele vai emprestar.

E como isso está relacionado com a concentração?

O sistema de transferências

TED - Transferência eletrônica disponível
TED – Transferência eletrônica disponível

Para evitar problemas de liquidez, quem determina quanto um banco precisa manter em reservas é o próprio Banco Central. Esse é o chamado compulsório, pois por lei ele precisa ser mantido em uma conta conjunta ao Banco central.

Nos depósitos à vista, por exemplo, 44% deve ser mantido em reserva, pois é uma modalidade de alta liquidez, ou seja, possui uma alta probalidade de ser retirado.

Já para depósitos em poupança, o compulsório é de 20%, pois a probabilidade dele ser retirado é menor.

Agora, considerando o momento em que há uma TED (Transferência eletrônica disponível), o dinheiro sai automaticamente do compulsório de um banco para outro.

O que isso afeta na prática? Vamos pensar no seguinte cenário:

Considere que exista 5 bancos grandes e 1 pequeno e todos eles possuem 25% do dinheiro guardado como compulsório.

Todo o restante do dinheiro está emprestado.

No momento em que há um TED, retira-se um certo valor de um banco e automaticamente o Banco Central transfere para o outro banco.

Entre os grandes bancos, as transferências praticamente se anulam ao longo do tempo. Não seria um exagero afirmar que o número de TEDs do Itau para o Banco do Brasil é na média o mesmo de TEDs do Banco do Brasil para o Itau. Isso garante que os níveis de reserva se mantenham constante.

Por outro lado, na ocasião de um banco pequeno, é muito mais provável que o número de TEDs que ocorra do banco menor para o banco de maior expressão seja maior do que o caminho contrário.

Isso faz com que o banco pequeno tenha uma maior dificuldade de manter as suas reservas pois para compensar essa perda de reserva, ele precisará obter recursos com o Banco Central e obviamente pagará por isso.

Dessa forma, há uma grande barreira para um pequeno banco, pois para um grande banco, o controle de reservas será muito mais facilitado e, em última análise, a rentabilidade será maior.

Assimetria de informação

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Você conhece a força do outro?

Além da questão das reservas, existe mais um importante fator para a ocorrência da concentração bancária: a assimetria de informação.

Esse problema econômico ocorre basicamente quando em uma transação entre 2 agentes econômicos, um deles possui mais informações acerca da transação do que a outra parte.

Isso acontece o tempo todo em nossas vidas.

No momento de compra de um carro alugado, o dono do carro alugado sabe muito mais sobre a real situação do carro do que o comprador, por exemplo.

A assimetria de informação é uma falha de mercado, onde uma das partes possui um poder de barganha maior por possuir mais informações.

No mercado financeiro, isso ocorre nitidamente na situação de um empréstimo.

No momento em que um indivíduo está pedindo por um empréstimo em um banco, é impossível para o banco saber se a pessoa irá ou não pagar de volta.

Obviamente, por meio de uma série de análises de risco, o banco é capaz de prever com uma boa margem de erro, a probabilidade do empréstimo não ser pago. Para isso, ele basicamente precisar obter informações sobre o cliente.

Informações como renda, dívidas correntes, comportamento de consumo, aspectos psicológicos, etc.

Contudo, existe uma informação muito importante que os bancos brasileiros não tem acesso: o histórico de empréstimos não pagos em outras empresas após 5 anos.

Por lei – e eu juro que eu não consigo entender essa lei – orgãos como o SERASA, que se destacam por ser uma empresa de informação sobre dívidas não pagas do consumidor, só podem manter o registro de uma dívida não pago (Nome sujo) por cinco anos.

Isso mesmo. Se você contrair uma dívida no Itau, em 5 anos, ninguém além do Itau saberá que você não pagou essa dívida.

Voltamos ao problema de assimetria de informação. No momento de tomada de um empréstimo, é comum que o tomador saiba os seus problemas do passado e o banco não. Assim, o banco acaba optando por dar um empréstimo.

A informação só será efetivamente registrada pelo banco que sofreu o calote.

É aquela velha máxima, quem empresta o dinheiro nunca esquece.

E por que isso afeta a concentração? Dentro dessa linha de pensamento, quanto mais informações um banco tiver sobre diferentes pessoas, melhor ele vai conseguir prever a probabilidade de uma pessoa pagar.

Imagina no caso da fusão entre o Unibanco e o Itau. O compartilhamento de informações entre eles claramente fez com que o banco perdesse menos dinheiro com dívidas não pagas.

Consequências

Além desses fatores, existem uma série de pontos que fazem com que a concentração bancária seja uma tendência no Brasil. Como mostrado anteriormente, isso não somente é algo teórico, mas um resultado empírico.

Contudo, mais importante do que entender como ocorreu a concentração bancária, é compreender quais são os efeitos desse fenômeno para o consumidor.

É notório que a concentração bancária possui alguns benefícios.

Estudos teóricos mostram que a concentração bancária possui um efeito estabilizador.

Sistemas bancários concentrados são menos suscetíveis a crises sistêmicas, mesmo quando considerada uma diversa gama de fatores macroeconômicos, regulatórios e institucionais, apesar de haver evidências de que o efeito estabilidade da concentração bancária é mais tênue quanto mais concentrado for o setor.

Contudo, os efeitos negativos muitas vezes são mais danosos ao consumidor final.

Em primeiro lugar, esse fenômeno gera corporações pouco inovativas, visto que elas possuem incentivo a apenas manter os seus status quo.

No longo prazo, isso pode afetar a qualidade do serviço que elas oferecem.

Além disso, a concentração bancária dá margens à lucros extraordinários. Em um cenário onde poucos bancos controlam efetivamente o preço dos produtos financeiros praticados na economia, há uma maior possibilidade para praticar preços mais elevados.

Esse é uma das razões das altas taxas de juros ao consumidor brasileiro, um dos principais problemas da economia brasileira.

Estrutura de juros

Big Percent, Finance
Como se estrutura o juros

Em última análise, a variável mais importante para o modelo de negócio de um banco é a taxa de juros que ele empresta dinheiro versus a taxa de juros que ele financia as suas operações.

À grosso modo, os bancos se financiam à taxa SELIC, a taxa básica da economia brasileira. Atualmente, ela está fixada em 14,25%. Esse é o valor que os bancos pagam quando querem pegar dinheiro emprestado.

Se os bancos conseguirem emprestar a um valor acima da taxa SELIC, eles estão ganhando dinheiro na diferença. Por exemplo:

Pegam R$100,00 e emprestam todo o valor. Ao final de um ano:

Devem R$114,25 e ganharam R$100 vezes a taxa que eles emprestaram.

Se eles emprestaram à 100%, eles vão obter R$200,00 e o lucro líquido será de R$87,75.

Contudo, é importante lembrar que o banco também possui um custo de operação. Ele precisa pagar aluguéis, salários, sistemas, faxineiros, máquinas, etc.

Logo, a diferença entre o que ele ganhou emprestando e se financiando tem que ser suficiente para pagar os seus custos.

Dessa forma, a grosso modo, os juros de um determinado banco será de:

Taxa média de juros = Lucro +  Custo + Taxa de financiamento + Expectativa de perdas

Essa simples equação já mostra como a taxa SELIC influencia os juros de empréstimos para pessoas físicas. Se a SELIC cai, os juros dos bancos caem.

Simples assim.

Se a SELIC sobre, como agora, os juros dos bancos sobem.

Já o custo do banco é influenciado pelo número de agências que ele possui, o número de funcionários e toda a sua estrutura física.

Por fim, há a expectativa de perdas. Esse ponto leva em consideração a porcentagem que o banco irá perder de dinheiro baseado na probabilidade das pessoas não pagarem. Quanto menos informações o banco tiver sobre uma determinada pessoa, maior a probabilidade de não pagamento.

O lucro é calculado baseado na diferença entre as taxas praticadas e as demais variáveis. Um dos problemas que a concentração bancária gera é a existência de lucros extraordinários, o que no fundo é resultado de juros extraordinários.

No Brasil, os juros médios para empréstimos de pessoas livres está em torno de 121% a.a, enquanto a taxa selic está em 14,25% a.a. Ao mesmo tempo, a taxa de inadimplência é de cerca e 7,8%.

É óbvio que o custo de um banco é alto, mas você realmente acredita que isso é responsável pela diferença entre 121% e 22,05%?

A situação quase que clama por novas soluções.

É aí que entram as fintechs.

As fintechs

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Fácil e prático.

Em resumo, fintechs são representadas pelas startups que usam algum tipo de tecnologia aplicado ao mercado financeiro.

É o caso do Nubank.

A grande diferença das Fintechs, quando confrontadas com as soluções tradicionais do mercado financeiro, é que elas utilizam a tecnologia para oferecer praticidade, segurança, e conveniência.

Esse conceito está sendo utilizado para os mais diversos fins.

Hoje em dia, já temos as fintechs que atuam nas seguintes áreas:

  • Empréstimos online
  • Investimentos online
  • Controle de gastos
  • Cartão de crédito
  • Gateways de pagamento

A lista não para por aí.

O interessante dessas Startups é que elas oferecem um serviço totalmente voltado para o usuário, para a satisfação de quem está utilizando o sistema.

Tudo é feito sem burocracia, pela internet e de uma forma rápida.

E o melhor disso tudo? É mais barato.

Winter is coming

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Winter is coming

Já percebeu onde eu quero chegar?

As fintechs podem ser capazes de dominar o mercado financeiro em pouco tempo.

De acordo com o Goldman Sachs, 20% dos lucros do setor financeiro devem ir para as novas plataformas destas fintechs até 2020.

O mais interessante desse cenário é que os bancos simplesmente não possuem capacidade para competir de igual para igual com essas novas empresas.

Vamos considerar o caso das fintechs que atuam oferecendo empréstimos online.

Lembra da estrutura de juros que destacamos acima? Vamos considerar um cenário onde os bancos tradicionais e as fintechs trabalhem com lucro zero, ou seja, a taxa de juros efetiva irá apenas refletir as demais variáveis

Note que a taxa de financiamento é igual para as fintechs e para os bancos tradicionais. Contudo, as outras 2 variáveis são diferentes.

Primeiro, em relação as perdas, as novas startups utilizam técnicas modernas de análise comportamental para estimar a probabilidade de inadimplência. Essas técnicas apresentam uma eficácia no mínimo igual às dos bancos tradicionais.

Note que em relação a essa variável, os bancos tradicionais podem simplesmente fazer a mesma coisa. Contudo, quando se olha a estrutura de custos, percebe-se a grande diferença.

Os bancos tradicionais são moldados em um ambiente físico. Há agências, gerentes, caixas em todo lugar, papel, tudo documentado e ineficiente.

Fintechs são dinâmicas e minimalistas. Tudo é online e paperless. 

Os bancos jamais vão conseguir se aproximar do custo das fintechs. Para fazer isso, ele em primeiro lugar teria que vender boa parte de seus imóveis e demitir uma grande parte de seus funcionários. Imagine o Itau fazendo uma demissão em massa de 50% dos seus funcionários. Só uma coisa vem na minha mente:

Greve.

O esforço para os bancos adaptarem o seu custo para poderem competir com as fintechs é enorme. Não só enorme, como também prolongado. Um ajuste desse porte é demorado e doloroso.

Agora, se os bancos não são capazes de fazer frente com o preço das fintechs, no que eles podem ser melhor? Atendimento e qualidade do serviço, talvez?

Errado novamente. Para quem já utiliza o Nubank, isso é óbvio.

Todo o desenvolvimento das fintechs foi voltado para serem plataformas amigáveis ao usuário, sem nenhuma burocracia e dificuldade.

São praticas, onlines, estão no smartphones, estão no whatsapp e estarão sempre lá para tirar uma dúvida.

Pergunte sobre isso a um usuário do Nubank. Aposto que ele ama a empresa.

Se os bancos tradicionais não conseguem competir no preço e nem na qualidade do serviço, o que eles podem fazer contra a onda das novas fintechs?

Eu não tenho essa resposta. Ouso até dizer que não há saída.

Obviamente, esse é um novo cenário que ainda vai demorar para ser realidade. Contudo, é inegável que esse é um caminho sem volta.

Afinal, valar morghulis.

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Spoiler!!! All men must die
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